Órfãos de uma epidemia

No segundo dia da série de reportagens “Quando não mata, fere”, a dor de quem fica e a difícil tarefa de pôr um fim a cruéis estatísticas. Estudo do Ministério Público do DF apontou que, em cinco anos, 96 mulheres foram assassinadas por homens
» Camila Costa
Daniela Oliveira, irmã de Ana Grasiella, estrangulada e morta pelo marido em 2012:

Daniela Oliveira, irmã de Ana Grasiella, estrangulada e morta pelo marido em 2012: “Eu poderia ter ido lá antes; me sinto tão culpada”

Elas fariam aniversário no próximo mês. Ana Grasiella Oliveira Montes completaria 23 anos; e Juliana Lucas de Souza, 32. Uma, em 2 de maio; a outra, dia 10. Duas jovens, ambas de cabelos negros e cacheados, filhos pequenos para criar e uma vida promissora pela frente. As coincidências felizes param por aí. As jovens sofriam agressões e ameaças dos maridos. Viram a ideia de felicidade ser traída por algo bem mais concreto: o peso da mão dos companheiros, um símbolo do machismo arraigado na sociedade. Viveram dia a dia o avesso do amor, enquanto ficavam mais distantes da família. Por fim, a derradeira promessa dos maridos foi cumprida. Juliana foi assassinada em 4 de dezembro de 2011. Grasiella, dois meses depois. O sofrimento e o sentimento de culpa de quem fica são incessantes.

Grasiella era romântica, sensível, gostava de ler, especialmente, poemas. Sonhava em ser professora de inglês. Era chegada a um abraço apertado e o choro sempre vinha com facilidade, em momentos de emoção. O apego cultivado pela família talvez tenha sido o motivo que leva a irmã de Grasiella a desconfiar que ela lhe esperou para dar o último suspiro. Foi Daniela Oliveira da Silva, 36 anos, que a encontrou, em casa. O laudo da perícia não apontou exatamente a hora da morte, mas deixa claro que quando ela foi largada por seu algoz não estava morta, como ele imaginava. Agonizou por quase 48 horas.

Era 4 de fevereiro de 2012. A jovem tinha ido trabalhar. Avisou ao marido que se atrasaria. Ele foi até o trabalho dela conferir. Não a encontrou. “Ele ficava nervoso dentro de casa, tinha jeito de psicopata. Por isso, ela já vinha sendo vítima de agressão, mas a gente não sabia. Toda vez que pude, tentei alertá-la, mas a gente nunca acredita que isso pode acontecer, então ela relutou, pois já estava doente emocionalmente”, lembra a irmã.

Horas de agonia

Grasiella chegou em casa por volta das 21h. Pouco antes, falou com Daniela ao telefone. A irmã pediu que ela tomasse cuidado com o marido, que já despertava o medo da família pelo comportamento diferente e agressivo dos últimos tempos. “Ela respondeu: ‘Deixa que eu me entendo com ele’. Antes de entrar em casa, alertou a vizinha, pedindo que ela fosse lá caso ouvisse algo estranho”, conta Daniela. O casal se desentendeu. O marido tinha ciúmes e recusava uma possível separação, sugerida por Grasiella. Mesmo na frente do filho de 2 anos, ele não se intimidou. Enfiou um pano na boca de Grasiella até a garganta e a esganou praticamente até a morte.

Daniela lembra-se da cena como se fosse hoje e não segura as lágrimas. Sente por não ter ido à casa da irmã antes e, talvez, tê-la salvado da tragédia. “Ele fugiu e deixou o filho deles com minha mãe. Disse que iam viajar para Pirenópolis, mas eu sabia que não tinham condições para isso. Havia algo estranho. Eu poderia ter ido lá antes, me sinto tão culpada por isso. Dois dias depois, o assassino ligou para o pai, dizendo que o corpo estava dentro de casa. Ela deu o último suspiro quando eu cheguei. Parecia que estava me esperando”, recorda. Arismar Brito Rodrigues, 35 anos, assassino confesso da mulher, está preso. Foi condenado por homicídio duplamente qualificado, a 22 anos de reclusão, em regime inicialmente fechado.

O filho deles, hoje com 6 anos, está sob a guarda de Daniela. Vive feliz e cheio de amor, mas ainda traz as marcas da tragédia familiar. É visto com frequência imitando os gestos que viu o pai fazer com a mãe, no dia do crime. “Ele pegava no pescoço dos bichinhos, no nosso e, atualmente, pega apenas no dele, e fica simulando um enforcamento. Ele sabe da mãe dele, mas me tem como mãe; meu marido como pai, mas já teve dias dele gritar por ela, dizendo que estava com saudade”, revela, emocionada. Daniela não pretende esconder a verdade. “Ele me perguntou se ela vai voltar. Eu disse que não. Que a gente é que vai encontrá-la em algum lugar, um dia”, explica a professora.

Depoimento
Capturar
(Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)

“Nossa família é toda da Bahia. Só a Juliana nasceu aqui. Era a caçula. Dona Etelvina, nossa mãe, uma guerreira. Teve Juliana mesmo após um acidente, foi atropelada no Eixão e ficou toda quebrada, ninguém imaginava que podia vir mais um filho. E veio Juliana. Meu pai tinha verdadeira paixão por ela. Era a alegria dele. Nós morávamos todos juntos em Santa Maria. Foi lá que vivemos nossa fase de adolescência, amizade e namoros. Foi lá que ela conheceu o rapaz. Foi o único homem da vida dela. E ele era bom, sempre prestativo e solícito. Ela tinha entre 15 e 16 anos quando começaram a namorar. Tiveram uma filha e foram morar juntos. Até então, nenhum problema. Veio o segundo filho. De repente, começamos a perceber algo estranho. Falta de atenção dele com ela, com os meninos. Ela passou a ficar muito tempo na casa da mãe, tinha algo errado. Pouco depois, ela pediu a separação e voltou para a nossa casa. Foi quando ele demonstrou mais resistência. Usava as crianças para chantagear, vieram as agressões. Juliana trabalhava de segunda a segunda, em dois empregos, ajudava muito em casa. Ele começou a atrapalhar, ia no trabalho dela. Ela o denunciou numa quinta-feira. No domingo, 4 de dezembro de 2011, estávamos todos em almoço de família, como sempre fazíamos, e ele chegou com ela. Tinha ido esperar por ela no emprego. Queria forçar uma conversa, mas ela não queria. Falei com ele, deixa pra lá, e ele sempre manso. Essa hora ela já estava com muito medo. Parecia que estava pressentindo. Ficamos fora de casa, tentando reverter a confusão, ela chamou a polícia. Eu não deixei levá-lo. Meu Deus, que arrependimento, como eu me sinto culpado! Meu irmão foi questioná-la do porquê ter chamado a polícia e, nesse meio tempo, puxei meu irmão para conversar. Ele fingiu que ia beber água, pegou a faca e foi para cima de Juliana. Ouvi os gritos da minha mãe e corri. Cheguei a lutar com ele, ainda com a faca, mas ela já estava morta. Na frente de minha mãe e da filha deles. Nossa família se desfez. Todos foram embora. Desde a tragédia, a dor é diária.”

Henrique Lucas de Souza, 37 anos,
irmão de Juliana Lucas de Souza, morta aos 27 anos pelo marido.
Feminicídio, reforço legal
Publicação: 02/05/2016 04:00

A violência contra a mulher não é um fato novo. Pelo contrário, é tão antiga quanto a humanidade. O que é novo, e muito recente, é a preocupação com a superação dessa violência como condição necessária para a construção da humanidade. E mais novo ainda é a judicialização do problema, ou seja, a criminalização da violência contra as mulheres, não só pela letra das normas ou leis, mas também pela consolidação de estruturas específicas, mediante as quais o aparelho policial e/ou jurídico pode ser mobilizado para proteger as vítimas e/ou punir os agressores, conforme estabelece a Lei Maria da Penha. Mais recente ainda, faz uns poucos meses, em março de 2015, foi sancionada a Lei 13.104/2015, a Lei do Feminicídio, classificando-o como crime hediondo e com agravantes quando acontece em situações específicas de vulnerabilidade (gravidez, menor de idade, na presença de filhos, etc.).

Só neste ano, no Distrito Federal, cinco mulheres foram mortas pelos namorados, maridos, ex-companheiros. Em 2015, de acordo com o levantamento da Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social do DF — no intervalo de março — quando a Lei 13.104 entrou em vigor — até dezembro do ano passado, cinco mulheres foram mortas pelos parceiros ou ex-parceiros.

Essa conta, no entanto, é restrita ao alcance da nova lei e pode estar subestimada. Pesquisa feita pelo Núcleo de Gênero Pró-Mulher, do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), em parceria com o Instituto Anis sobre feminicídio no DF mostrou outra realidade em anos anteriores. Foram documentados 96 feminicídios na capital do país em um intervalo de cinco anos, entre 2006 e 2011. “É uma média de 19 mortes por ano. É assim que tem sido. É preciso fortalecer as políticas públicas de proteção e enfrentamento à violência contra a mulher, evoluir nas estratégias de assistência familiar, investir na educação, discussão sobre igualdade de gênero para romper com a cultura da violência ou, do contrário, continuaremos a ver esses números aumentarem”, alerta o coordenador do núcleo, o promotor Thiago Pierobom.
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