Dupla ameaça aos lençóis freáticos

Redução das chuvas e ação do homem trazem sérios danos aos recursos hídricos do Distrito Federal. Em Planaltina, o nível dos reservatórios baixou até três metros no intervalo de 12 anos. Proliferação de cisternas clandestinas dificulta a gestão da água
» Flávia Maia
Publicação: 05/05/2016 04:00
image001 (1)
Operários abrem um poço próximo a Taguatinga: no DF, de cada quatro cisternas existentes, apenas uma tem a outorga da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press – 29/4/16)

Operários abrem um poço próximo a Taguatinga: no DF, de cada quatro cisternas existentes, apenas uma tem a outorga da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico

O cenário de chuvas falhas e cada vez mais esparsas no Distrito Federal e o uso humano não planejado vêm repercutindo nos reservatórios de águas subterrâneas. Estudos mostram que os lençóis freáticos rebaixaram até três metros em algumas regiões da capital da República nos últimos 15 anos. O que preocupa os especialistas é a importância desses mananciais para a composição dos rios que abastecem a cidade, como o Descoberto, o Santa Maria e o Lago Paranoá. Os lençóis são responsáveis por 90% da vazão dos rios na época da seca.

Além da mudança no regime de chuvas, a ação do homem contribui para o rebaixamento das reservas subterrâneas. A ocupação irregular, as constantes impermeabilizações do solo e a construção de poços irregulares são exemplos da interferência humana no ambiente. No DF, de cada quatro cisternas existentes, apenas uma tem a outorga da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do DF (Adasa). Sem o controle, o órgão regulador não consegue estimar a real disponibilidade hídrica dos aquíferos, nem mesmo planejar qual será a melhor forma de distribuição do recurso.

Levantamento realizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostra que na região de Planaltina, os lençóis estão entre dois e três metros mais baixo do que o registrado no início da série, em 2004. O pesquisador Jorge Werneck conduz as pesquisas e monitora 47 poços há 12 anos. Segundo ele, entre 2004 e 2007, o acesso à água começava entre cinco e oito metros de profundidade nos primeiros três meses do ano. Em 2016, no mesmo período, a média caiu para de oito a 10 metros.

Na opinião de Werneck, o regime irregular de chuvas é o principal vetor de diminuição do volume dos lençóis freáticos. Nos últimos anos, não só os episódios de chuva tornaram-se menos constantes como a quantidade de água diminuiu. A média registrada de chuva de janeiro a março era de 1.500mm na década de 1970. Em 1990, caiu para 1.200mm e em 2016, foi de 800mm. “As chuvas estão mais fortes, porém menos constantes, o que aumenta o escoamento superficial e diminui a infiltração. É com a infiltração que os lençóis são recompostos”, explica.

Sem recompor a água do lençol na velocidade em que ele é usado, os rios diminuem a vazão, o que atrapalha o abastecimento. As nascentes também somem, uma vez que elas são a afloração do lençol na superfície. A Adasa e a Companhia de Saneamento do DF (Caesb) têm feito um rigoroso controle das águas superficiais. O Lago Paranoá, por exemplo, tem um plano de manejo. O Descoberto e o Santa Maria ainda não contam com nenhum regulamento formal, mas a Caesb controla o uso. Por isso, mesmo com a estiagem de 2016, o nível dos reservatórios se mantêm.

Entretanto, quando se trata de águas subterrâneas, ainda há poucas informações dos órgãos gestores. Apenas em agosto do ano passado que a Adasa passou a monitorar o nível dos aquíferos debaixo do solo. Por isso, ela ainda não consegue precisar as perdas no volume dos lençóis. “O volume do subterrâneo está relacionado com o superficial. Quando para a chuva, o que mantém os rios é o subterrâneo. Por isso, fizemos a rede de monitoramento subterrânea em paralelo ao controle dos reservatórios. Ainda não temos resultados, mas eles nos ajudarão na gestão efetiva do recurso”, afirma Camila Campos, coordenadora de informações hidrológicas da Adasa.

Cisternas vazias
Enquanto não há uma gestão efetiva das águas subterrâneas e a proliferação de poços sem as licenças devidas continuam, os moradores que dependem de cisterna começam a sentir no quintal de casa a falta de água. O técnico em informática Efigênio Nunes Inácio, 37 anos, mora em uma casa entre Brazlândia e Taguatinga e percebeu a diminuição do volume da cisterna em dois metros. “Eu me mudei para esta casa há três anos. No começo do ano, a água aparecia com oito metros. Agora, só com 10.” Inácio e a família usam a água da cisterna para o banho, para limpar a casa e as roupas. O líquido para beber e para cozinhar é comprado em Ceilândia e trazido em galões. “A água é transparente, mas não confio. Por isso, prefiro comprar.”

Glossário

Cisterna
Poços de diâmetros de um metro ou mais, escavados manualmente e revestidos com tijolos ou anéis de concreto. Captam o lençol freático e têm geralmente profundidades de até 20 metros.

Poço tubular
image002 (1) Obra de engenharia que dá acesso à água subterrânea, executada com sonda por perfuração vertical e profundidade de até 2 mil metros para captação de água.

Para conseguir consulta para Eloá, Edneia costuma madrugar nos postos (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press – 29/4/16)

“Eu me mudei para esta casa há três anos. No começo do ano, a água aparecia com oito metros. Agora, só com 10”
Efigênio Nunes Inácio, técnico em informática

site:www.correiobraziliense.com.br