Álcool ao volante, perigo para jovens

image001

image002Às vésperas de completar oito anos de vigência, a tolerância zero na direção diminuiu o número de mortos nas vias do DF, mas ainda não despertou a consciência de motoristas, passageiros e pedestres, principalmente entre 18 e 24 anos

ADRIANA BERNARDES
Publicação: 13/06/2016 04:00

No Lago Sul, uma jovem de 19 anos atingiu uma ciclista depois de passar a madrugada em uma festa de casamento: vítima no hospital (Gustavo Moreno/CB/D.A Press)

No Lago Sul, uma jovem de 19 anos atingiu uma ciclista depois de passar a madrugada em uma festa de casamento: vítima no hospital

Em 21 de junho, motorista bêbado matou um rapaz no Eixo Monumental (Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)

Em 21 de junho, motorista bêbado matou um rapaz no Eixo Monumental

No Distrito Federal, um em cada cinco jovens mortos em acidentes de trânsito está alcoolizado. Na próxima semana, a tolerância zero à mistura álcool e volante completa oito anos e nem mesmo os recém-habilitados parecem ter consciência dos riscos de assumir a direção embriagados. E com isso, engrossam a parcela da sociedade que morre e mata ao volante. Nos dois últimos anos, das 757 vítimas do asfalto, 125 tinham entre 18 e 24 anos — são condutores, passageiros e pedestres. Do total, 22 apresentavam alguma quantidade de bebida no organismo.

Os números reais, no entanto, são muito maiores. Falta incluir na conta aqueles que morreram 30 dias ou mais após o acidente. E as vítimas não alcoolizadas de jovens motoristas, que, bêbados ao volante, tiraram a vida de gente como o comerciante Victor Anderson Pereira dos Santos, 23 anos. Ele morreu em 21 de maio, após ser atropelado no Eixo Monumental. Também não estão contabilizados os sobreviventes, como a ciclista atropelada na ciclofaixa do Lago Sul há oito dias.

De 20 de junho de 2008, quando a lei entrou em vigor, até hoje, a legislação foi aperfeiçoada para tornar mais rigorosa a punição para quem insiste em dirigir sob o efeito de álcool. Desde que passou a vigorar, o número de mortos, em geral, sofreu queda de 10,6%. No primeiro ano de vigência da proibição de dirigir nessa situação — de 20 de junho de 2008 a 19 de junho de 2009 —, 422 pessoas morreram. No último ano, foram 377 casos, considerando os registros de 20 de junho de 2014 a 19 de junho de 2015. Além disso, a quantidade de multas e de presos pelo crime só cresce.

A falta de pesquisas sobre as causas das tragédias não permite às autoridades de trânsito atribuir a queda das fatalidades ao combate à alcoolemia ao volante ou a qualquer outro fator. Mas é inegável que a proibição e o arrocho na fiscalização, aliados a um maior rigor na punição, tiveram um mérito: mesmo discordando da lei, a sociedade já não acha normal beber e pegar o carro em seguida.

Via de regra, quem mata no trânsito destrói duas famílias. A da vítima e a própria, guardadas as devidas proporções. O Correio conversou com a jovem de 19 anos que, após sair de uma festa de casamento na qual diz ter bebido champagne em pequena quantidade, atropelou uma mulher que pedalava com o marido na ciclovia do Lago Sul. Eram 9h. Carolina (nome fictício) passou a noite e a madrugada na cerimônia. Com o dia claro — e depois de tentar sem êxito chamar um táxi —, decidiu pegar o carro para deixar uma amiga na Asa Norte e, depois, voltar para o Lago Sul. “Eu não estava sob efeito de álcool, pois já havia passado muito tempo desde a minha última taça de champanhe. Mas estava muito cansada e sonolenta. Foi em uma piscada mais demorada de sono que o carro desviou da pista e foi para a ciclovia”, relata.

Carolina conta que, neste momento, parou o veículo e desceu para prestar socorro. “Liguei para os bombeiros e, em seguida para a polícia. Concordei com todos os procedimentos, inclusive com o teste do bafômetro, pois, como disse, não estava embriagada. Eu estava sonolenta”, reforça. Apesar disso, o resultado apontou 0,3 miligrama de álcool por litro de ar expelido dos pulmões. A partir de 0,34, o condutor responde por crime. “Se eu pudesse, eu mudaria tudo naquela noite. Não deixaria o meu carro perto da festa para não correr o risco de ser obrigada a dirigir ou dar carona. E insistiria em chamar um táxi”. A reportagem tentou contato com os parentes da ciclista, mas eles não quiseram dar entrevistas.

“Consciência”
Especialistas alertam que, apesar da lei, o Estado não conseguiu o principal: mudar o mau hábito do condutor. Nem mesmo os jovens motoristas — muitos deles habilitados após a proibição de dirigir bêbado — respeitam a legislação. Professor da Universidade de Brasília (UnB) e presidente do Instituto de Segurança no Trânsito (IST), David Duarte afirma que os condutores têm medo de serem flagrados. Mas é só isso. “O comportamento ético, que é fazer a coisa certa, mesmo que ninguém esteja vigiando, ainda não foi absorvido pela população mais nova. Cerca de 25% dos estudantes da UnB beberam e dirigiram no último mês”, revela.

O problema é que nem sempre os infratores conseguem concluir o trajeto em segurança. A família do comerciante Victor Anderson Pereira, citado no começo da reportagem, vive o luto precoce da morte. A prima dele, a dona de casa Ana Paula da Silva Alves, diz que o pai do rapaz está em depressão. “Os olhos estão sempre cheios de lágrimas. A gente não encontra palavras de consolo para ele. Quando chega ao local onde trabalhava com o Victor, vem o baque do acidente e ele se desespera”, relata.

Victor morreu em 21 de junho, no Eixo Monumental, nas proximidades da Catedral Rainha da Paz. Ele descarregava doces e salgados do carro estacionado na via a fim de montar a banca de café da manhã atrás da parada de ônibus. Eram 5h20, quando o condutor do Honda Civic preto atingiu Victor pelas costas, arrastando-o por 100m. Bruno Rocha de Andrade, 27, fez o teste do bafômetro, que acusou 0,80 miligramas de álcool por litro de ar expelido nos pulmões, segundo a Polícia Militar. Ele voltava de uma festa. Sete horas após o acidente, pagou fiança de R$ 8 mil e ganhou a liberdade. “O irmão dele foi ao cemitério pagar a taxa e fica dizendo que vai dar outro carro para o meu tio. A gente só queria que ele tive consciência de não beber e dirigir de novo.” Há 22 anos, a avó de Ana Paula morreu atropelada na Estrada Parque Taguatinga (EPTG). O condutor fugiu sem prestar socorro. A família nunca soube quem foi o responsável.

Educação
O diretor de Policiamento e Fiscalização do Departamento de Trânsito (Detran), Silvain Fonseca, explica que a autarquia mudou o foco das campanhas educativas, alertando que, não só o motorista, como também o pedestre, o ciclista e o carona fiquem longe das vias quando ingerirem bebida alcoólica. “As pessoas precisam saber diferenciar os tipos de campanhas. Há aquelas voltadas para órgãos de imprensa. Temos parceria com a Secretaria de Educação para mudar o comportamento das crianças e o monitoramento de regiões críticas. Não é só campanha que vai resolver. É o tripé: engenharia, fiscalização e educação.”

Na próxima segunda-feira, o Correio publica o balanço da lei seca nos últimos oito anos e conta histórias de mais pessoas que tiveram as vidas afetadas pelo desrespeito à norma.

Depoimentos

O pior dia da minha vida”

“O acidente mudou tudo na minha vida. Passei todo o dia em choque, sem acreditar no que tinha acontecido. Não passo um minuto sequer sem pensar no ocorrido. Desde então, não consigo comer direito, dormir ou raciocinar. A primeira noite que consegui dormir foi quatro dias depois do acidente, quando soube que a vítima já não estava mais na UTI, e o estado de saúde dela era estável. O julgamento das pessoas também tem sido muito difícil, não estava alterada pelo álcool, também sou ciclista, faço corrida na rua pela manhã ao menos quatro vezes na semana, nunca fui imprudente ao volante. Estou completamente traumatizada, não me sinto preparada para voltar a dirigir nem voltar a correr por muito tempo. Percebi que, em 1s, pode mudar sua vida para sempre e também a de outras pessoas. Foi certamente o pior dia da minha vida, mas também um divisor de águas para mim. Sei que não saberia conviver com o fato de ter causado algum dano permanente à saúde dela. Rezo a todo momento pela melhora da vítima e que um dia ela possa me perdoar.”

Jovem envolvida em colisão
com vítima no Distrito Federal

“Sabe o mal que causou”

“A minha filha não poderia ter bebido e dirigido. O comportamento dela foi totalmente inadequado. Não é o que ensinamos aqui em casa. Ela assumiu o risco de beber e dirigir e vai ter de pagar por isso, pois as consequências foram sérias. É um momento tão delicado, que a gente fica sem palavras diante da gravidade dos fatos. É um acontecimento que tira o chão da gente por causa do que nós causamos: levamos uma pessoa para o hospital. Ela tem consciência do que fez. Sabe o mal que causou. Isso vai mudar vida dela para sempre. Agora, vai pensar mil vezes antes de fazer uma bobagem dessa. Geralmente, as pessoas só olham para a vítima, e com razão. Mas o sofrimento não é só deles. Existe um sofrimento enorme para quem causa tudo isso.”

Pai de jovem alcoolizada que provocou acidente também no DF.
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