VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER » Rouba os corações e os bolsos das vítimas

Homem de 48 anos é investigado no DF, em Goiás e no Ceará acusado de aplicar golpes em mais de 30 mulheres. Em Brasília, uma delas chegou a entregar cerca de R$ 102 mil. Ele usa o charme e conta mentiras para obter o dinheiro

» ISA STACCIARINI
Publicação: 15/06/2016 04:00
coracao

Um grupo de mulheres se uniu para denunciar um estelionatário amoroso de 48 anos que já fez mais de 30 vítimas por todo o país: três delas no Distrito Federal, uma em Formosa (GO) e outra no Novo Gama (GO). Além de procurar a polícia e orientar outras mulheres que tenham caído na lábia do farsante, elas denunciam em uma rede social os cerca de 18 perfis que o homem mantém e as fotos que ele coloca em aeroportos do Brasil à caça de novas reféns. Para ludibriar as pretendentes, o golpista se diz oficial do Exército Brasileiro, lotado na Agência Brasileira de Inteligência (Abin), ou policial federal cedido ao órgão. Com perfil inteligente e sedutor, ele conta ser formado em psicologia e economia, com pós-graduação em marketing.

Uma das vítimas, moradora do Cruzeiro, perdeu cerca de R$ 102 mil. A Polícia Civil do DF, de Goiás e do Ceará investiga os casos. Existem duas ocorrências registradas na 3ª Delegacia de Polícia (Cruzeiro) — uma enviada à Formosa (GO), onde mora uma delas —, outra na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) e registros na Delegacia de Defesa da Mulher em Fortaleza (CE). O homem continua atuando nas redes sociais.

Ele segue um padrão: adiciona as pretendentes — todas entre 35 e 50 anos, com vida estável e poucos filhos — e inicia a conversa. Mostra-se interessado pelos mesmos gostos das vítimas, revela ser instrutor de tiro e paraquedista. Com a desculpa do falso trabalho, ele conta viajar para muitos lugares em missões de investigação. Em alguns casos, as diárias nos hotéis são pagas pelas próprias envolvidas. Ele justifica que, em razão da crise econômica, o governo federal parou de arcar com as hospedagens. Galanteador, promete casamento e uma vida cheia de sonhos. Quando percebe o completo envolvimento, o golpista coloca em prática as farsas: cria problemas de saúde e pede dinheiro.

Em agosto de 2014, uma professora universitária de 40 anos moradora do Cruzeiro conheceu o homem pela internet. A primeira saída ocorreu em janeiro de 2015. Para conquistá-la, ele passou a frequentar a mesma igreja da vítima. “Ele era simpático, bonito e envolvente. Andava perfumado, bem-vestido, dizia ter uma cobertura em Águas Claras e um apartamento na 210 Norte, que não eram deles.”

Para extorqui-la, o golpista inventou que o pai precisava passar por uma cirurgia e ser transferido para São Paulo. A professora, então, vendeu o carro por R$ 50 mil e entregou todo o dinheiro ao homem, com a promessa de devolução. Ajudou com mais R$ 25 mil e custeou a hospedagem dele. Ainda pediu demissão do emprego porque ele a convidou para um falso projeto de segurança em uma empresa aérea. “Quando comecei a cobrá-lo da necessidade do carro, notei que ele se afastou. Investiguei e achei as sete ex-mulheres dele. Encontrei inúmeras vítimas”, contou. Hoje, ela faz acompanhamento psicológico. “Ele incorporou um personagem há 20 anos e vive disso. Eu fiquei sem trabalho, sem carro, passando necessidade e até hoje pago empréstimo. Tenho três empregos para dar conta de tudo.”

Filhos

Todos os sete filhos do acusado são fruto de relacionamento com vítimas. Não paga pensão alimentícia por recusa das ex-companheiras, que sabem da existência do golpe. Uma das primeiras vítimas foi uma autônoma de 35 anos, de Formosa (GO), em outubro de 2012. Em 15 dias, pediu a mulher em noivado. Em 2013, ela engravidou, mas um mês depois perdeu o bebê em aborto espontâneo. Ela deu ao golpista, ao todo, R$ 20 mil. “Ele sempre tinha uma estratégia para abordar as mulheres e tocar no ponto em que cada uma sente necessidade”, contou. Quando descobriu a farsa, a mulher recebeu ameaças. Em 10 de dezembro do ano passado, a 1ª Vara Criminal da Comarca do Tribunal de Justiça de Goiás de Formosa expediu medida protetiva em favor dela. “A minha força, agora, é lutar para que nenhuma vítima caia nesse golpe.”

A titular da 3ª DP, delegada Cláudia Alcântara, explicou que entrou em contato com a Polícia Civil de Fortaleza para pedir mais informações e vai instaurar inquérito até o fim da semana. A titular da Deam, delegada Ana Cristina Santiago, explicou que, em 2009, uma das vítimas registrou ocorrência na unidade policial. O inquérito foi concluído em 2011.

Em nota, a Abin, o Exército e a Polícia Federal informaram que o homem nunca teve vínculo com os órgãos. O irmão do golpista, que é advogado, informou que não o representa e não quis comentar o assunto. A reportagem entrou em contato com o estelionatário, mas ele recusou todas as ligações.
confirma estupro

A Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA) confirmou ontem o crime de estupro contra a adolescente de 13 anos. O caso ocorreu há 11 dias e teve início na porta da festa da Paróquia Imaculado Coração de Maria, no Park Way, com o consumo de bebidas alcoólicas por menores. Os três garotos envolvidos confessaram as relações sexuais com a vítima, mas alegam a suposta permissão da menina. Entretanto, em razão da idade, a garota é considerada vulnerável pelo Código Penal. Uma peça íntima da vítima apresentou presença de esperma. Os acusados tiveram o material biológico recolhido para análise na tarde de ontem. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) ainda não está pronto.

Segundo a delegada Alessandra Lacerda, a vítima e uma amiga foram para a festa na paróquia, mas não chegaram a entrar no espaço. Lá, receberam bebida de um outro menor e encontraram uma conhecida. Depois de algum tempo, conversaram com três garotos que uma delas conhecia. Todos se cumprimentaram, permaneceram um tempo juntos e depois se separaram. Mais tarde, aproximaram-se novamente e alguém solicitou transporte por meio de um aplicativo para o apartamento da avó de um dos meninos, em Taguatinga Sul, que estava vazio. “Não havia maiores de idade no imóvel no momento (do crime). A responsável estava viajando”, confirma Alessandra.

No apartamento, os seis menores ingeriram mais bebida alcoólica. Segundo os relatos, três adolescentes tiveram relação sexual com a garota, porém em momentos diferentes. Segundo a delegada, em nenhum instante, a vítima estava desacordada. “Ela só não estava sóbria. Conversava e sabia os nomes das pessoas, mas, por conta da bebida, estava alterada.” Por volta da 0h, as três seguiram para a casa de uma delas. No dia seguinte, a vítima não lembrava totalmente do que havia ocorrido, e as amigas lhe contaram. “Na segunda-feira (7), ela foi para escola e estava com um comportamento meio estranho. Então, comentou com alguém do colégio. A supervisora teve conhecimento e chamou a avó para conversar. No mesmo dia, ela registrou o boletim de ocorrência”, afirma a delegada.

Todos os envolvidos foram ouvidos. Os jovens responderão por ato infracional análogo ao crime de estupro de vulnerável, com internação de até três anos. Além disso, o adolescente que forneceu bebida às meninas no início do evento também pode ser responsabilizado segundo o artigo 243 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).