De frente com o Alzheimer

O Distrito Federal está cada vez mais velho, e a idade é um fator de risco para o mal. Só no ano passado, 76,4 mil atendimentos em unidades hospitalares tiveram relação com a doença. No Brasil, o crescimento foi de 8,7%.

» OTÁVIO AUGUSTO

alzaimer

Jaqueline cuida da mãe, vítima da doença: “Conheço aquela pessoa, mas tenho dificuldade de conviver”
Desorganização do indivíduo. Isso ocorre com o paciente de Alzheimer. O verbo que mais explica a demência é a desaprender. Zélia Coimbra, 84 anos, era professora de inglês e pianista. Vaidosa, não descarta brincos e batom, mas não se lembra de fatos recentes e é incapaz de se situar no tempo. A idosa descobriu a doença em 2009, porém decidiu não contar à família. Durante algum tempo, os sintomas passaram desapercebidos. O esquecimento era tratado como “normal”. Ainda hoje, ela faz cálculos matemáticos com maestria. Quando está no banco do carona, soma a placa dos veículos com ligeireza. Dona Zélia não está sozinha. No último ano, as internações ligadas ao mal avançaram 8,7% no país, segundo o Ministério da Saúde.

A população da capital federal é composta por 10,9% de idosos — faixa etária mais acometida pelo Alzheimer. Em alguns locais, como Asa Sul e Lago Norte, a estatística sobe para 20%, segundo pesquisa da Companhia de Planejamento. O principal fator de risco para a doença é a idade. A magnitude do problema, segundo especialistas, é grande. A tendência é avançar nas próximas décadas. A alta expectativa de vida exige políticas públicas que repensem o modelo atual de assistência à saúde. Somente em 2015 houve nove internações e 76,4 mil atendimentos ambulatoriais no DF relacionados ao Alzheimer, de acordo com levantamento do Ministério da Saúde.

“A memória funciona como uma corrente. O paciente de Alzheimer se lembra de alguns elos, esquece outros e cria alguns deles. Por isso, ele perde a capacidade de se colocar no tempo”, explica o geriatra Otávio Castello, vice-presidente da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz). Na última quarta-feira, a reportagem acompanhou uma reunião mensal organizada pelo especialista, focada em parentes e cuidadores de pacientes com o mal. “A mentalidade da sociedade não percebe o problema. Não estamos nos preparando para o envelhecimento. Falta financiamento, política pública específica, disseminação de conteúdo”, ressalta Otávio.

Histórias

Cerca de 15 pessoas participaram do encontro na Escola Classe 106 Sul. Sentada próxima à porta de saída, a bibliotecária Jaqueline Coimbra, 56, participava da primeira reunião após o afastamento de um ano. Temerosa, aos poucos começou a falar sobre a mãe, Zélia. “Eu conheço aquela pessoa, mas tenho dificuldade de conviver. Eu não sei o que falar com ela”, explica a moradora da 114 Sul. Durante duas horas, cuidadores, filhos, esposas e netos de pessoas com Alzheimer contam histórias e desabafam. Em comum, a sensação de impotência frente a uma memória que, minuto a minuto, é despedaçada. “Minha mãe não se lembra de muita coisa. A partir disso, os pequenos momentos ganham uma proporção maior. Esses dias, eu pedi que ela fizesse uma massagem no meu pé. E ela revelou um belo talento”, conta Jaqueline, às lágrimas.

A Academia Brasileira de Neurologia (ABN) estima que o Alzheimer afete 7,2% da população idosa. Em algumas capitais, como Brasília, o índice chega a 14%. “Aos 60 anos, apenas 2% das pessoas têm a doença. A partir dessa idade, tal prevalência dobra aproximadamente a cada sete anos, a tal ponto que, aos 80 anos, 30% dos indivíduos têm a doença e, aos 90, 50% a desenvolveram”, detalha Norberto Ferreira Frota, coordenador de neurologia cognitiva e do envelhecimento da ABN. “Há 20 anos, a palavra câncer levava o medo. Hoje, é o Alzheimer. Esse medo é porque a doença não tem cura”, frisa.

Atualmente, cerca de 200 pacientes estão cadastrados e recebem medicação para o tratamento na Farmácia de Alto Custo. A falta de informações da Secretaria de Saúde prejudica o monitoramento da doença na capital federal. Apenas 15 especialistas atendem na rede pública. Em 17 das 31 regiões administrativas, não há o serviço. “A fase muito leve do mal passa despercebida e isso é um agravante para o prognóstico. As alterações no cérebro aparecem até 15 anos antes da identificação”, critica Norberto. Ele analisou o cenário a pedido do Correio. “Não existem muitos médicos capacitados para o diagnóstico. Além disso, reabilitações não são oferecidas. Estímulos e cuidados com a depressão, por exemplo, não são ofertados.”

O psiquiatra alemão Alois Alzheimer descobriu o mal em 1906. Após 110 anos, um tema é recorrente: o preconceito. “É essencial manter o respeito com a pessoa. Quando digo que tenho dificuldade de conviver, o medo de magoar ou constranger é maior. Quantas vezes vi a minha mãe fingindo se lembrar de uma pessoa ou participar de uma conversa com frases sem contexto”, conclui Jaqueline.

“A memória funciona como uma corrente. O paciente
se lembra de alguns elos e esquece outros”

Otávio Castello, geriatra

DICAS

PARA VER

Iris (2001)
» História de amor entre a escritora Iris Murdoch — Judy Dench e Kate Winslet, ambas soberbas — e o marido em duas épocas distintas, no frescor da juventude e na velhice, quando ela está com Alzheimer.

Para sempre Alice (2015)
» Alice Howland é uma renomada professora de linguística. Aos poucos, ela começa a esquecer palavras e se perder. Acaba diagnosticada com Alzheimer. A doença coloca em prova a força de sua família.

PARA ACESSAR

abraz.org.br
» Associação Brasileira de Alzheimer — Tratamentos e estudos

alz.org
» Alzheimers Association — Pesquisas científicas
e avanços da medicina

facebook.com/alzheimer.annaizabel
» Alzheimer — Minha mãe tem (Diário de uma idosa com a doença)

PARA LER

Você não está sozinho…
Nós continuamos com você
» Paulo Canineu, 2013

O lugar escuro
» Heloísa Seixas, 2007

Análise da notícia
Viver o hoje é o remédio

» LEONARDO MEIRELES
A idade avança e as idas ao médico se tornam mais constantes e ansiosas. Pressão alta, diabetes, gastrite, câncer, osteoporose. A lista de doenças cresce. Uma delas chama muito a atenção e mexe com a segurança de qualquer ser humano: o Alzheimer. Basta ler a respeito, conversar com parentes de vítimas e ver filmes para perceber que o mal significa ficar preso no próprio corpo, na própria mente. Tudo o que realmente importa na vida — o reconhecimento carinhoso de amigos e familiares e o conhecimento que se acumulou durante todos os anos de experiência —, fica guardado e trancado, sem qualquer possibilidade de fazer uso.

O retardamento dos efeitos é possível. São ações para que qualquer pessoa tenha qualidade de vida por muito tempo: alimentação saudável, exercícios físicos e mentais, cuidar da pressão, do diabetes, do peso, descansar bastante. Existem, porém, algumas dicas dadas por médicos, pesquisadores e especialistas que, em princípio, não parecem surtir efeito de cura, mas que são extremamente práticas. Eles mandam tocar instrumentos musicais, pensar positivamente sobre a vida, rir com amigos e familiares e fazer planos que possam ser cumpridos em um prazo curto.

Há uma razão para os conselhos, um lugar-comum que funciona: viver o hoje. É básico e cruel. Afinal, hoje, você tem memória e consciência. Amanhã, ninguém sabe.

Artigo
por Mario Louzã

A química por trás da doença
Ainda há dúvidas e controvérsias sobre as causas da doença de Alzheimer. Uma das certezas é que a genética é um dos fatores influenciadores. O sistema nervoso central produz uma proteína chamada apolipoproteína E (ApoE). Essa proteína tem algumas sub-formas, e a presença do alelo E4 do gene da apolipoproteína E (ApoE4) é considerado fator de risco elevado para o desenvolvimento da doença. Outros fatores que podem estar envolvidos na doença de Alzheimer é a presença de radicais livres (chamado stress oxidativo), diabetes, traumatismos cerebrais e elevação da homocisteína, um aminoácido presente no sangue que está relacionado com o surgimento de doenças cardiovasculares.

Na doença de Alzheimer, há uma redução importante de um neurotransmissor chamado acetilcolina. A maioria dos medicamentos usados no Alzheimer aumenta a quantidade deste neurotransmissor no cérebro. Esses medicamentos não recuperam o que já foi perdido (ou recuperam muito pouco), mas são úteis para reduzir a velocidade da progressão da doença. Além do tratamento medicamentoso, os cuidados com a saúde física, com a organização do ambiente do paciente e com a aplicação de atividades que auxiliem na memória (leituras, jogos e informações que incentivarão o exercício mental) contribuem para manter a qualidade de vida do paciente.

Mario Louzã é médico psiquiatra, doutor em
pela Universidade de Würzburg, na Alemanha.

Site:www.correiobraziliense.com.br