DIA DE FINADOS


Meio milhão de visitantes

Movimento foi intenso durante toda a segunda-feira nos seis cemitérios do DF. Só no Campo da Esperança, 208 mil passaram ontem por lá. Entre os túmulos mais visitados estava o da menina Ana Lídia, morta em 1973

  • Naiobe Quelem

  • Rodolfo Borges

    Shyrlley reza diante do túmulo da mãe, que faleceu há seis meses
    Fotos: Gustavo Moreno/CB/D.A Press
    O céu claro na maior parte do dia favoreceu o trânsito de pessoas no Campo da Esperança: de sábado a ontem, cerca de 296 mil estiveram no local
    Visitantes acendem velas no cemitério da Asa Sul: dia de orações e saudade para os familiares

    Os parentes e amigos chegaram cedo para prestar homenagens àqueles que partiram. Cerca de 560 mil visitantes passaram pelos seis cemitérios do Distrito Federal ontem para lembrar os entes queridos no Dia de Finados. A movimentação começou no sábado. Durante o fim de semana, 240 mil pessoas anteciparam suas saudações para evitar os transtornos da data em que os cemitérios são mais frequentados no país. A chuva prevista para ontem pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) não apareceu, e o sol forte chegou a incomodar alguns visitantes.

    No maior cemitério da cidade, o Campo da Esperança, localizado no fim da Asa Sul, a movimentação foi a maior registrada durante os três últimos dias. Desde sábado, passaram por lá cerca de 296 mil pessoas — 208 mil só ontem. Os arredores do cemitério ficaram cheios de carros. Os gramados do Setor Policial Sul e o estacionamento 6 do Parque da Cidade foram tomados pelos automóveis, que também lotaram o estacionamento do próprio Campo da Esperança. Apesar da intensa movimentação de veículos, nenhuma ocorrência de trânsito foi registrada.

    Na Asa Sul, o tráfego foi controlado por policiais do Batalhão de Trânsito (BPTran). Em Taguatinga, o acesso de veículos ficou sob responsabilidade de 12 equipes do Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF), com dois agentes cada. Nas demais cidades, a Polícia Militar atuou com apoio logístico do Detran. Para evitar tumulto e facilitar o acesso dos visitantes, a entrada de veículos nos cemitérios foi proibida, exceto para idosos e deficientes. Para chegar aos túmulos mais distantes, a população contou com vans que fizeram o transporte gratuito. O GDF também montou postos de primeiros socorros e banheiros químicos.

    Maria Adersina da Silva, 65, chegou cedo ao Campo da Esperança para cuidar do túmulo que abriga o pai, uma irmã que morreu há cinco anos e um neto. “Sempre venho ao cemitério cuidar do jazigo, mas Finados é um dia especial. É o dia deles”, comentava a aposentada, enquanto acompanhava a faxina no túmulo dos parentes. “Costumo vir com meu marido. Passamos em torno de uma hora por aqui, rezando. Mais tarde devem vir mais parentes”, disse, por volta das 8h, antes de se dirigir à sepultura de um irmão morto há 10 meses, de onde partiria para visitar “a casa de um compadre e um cunhado”.

    Mais reservada, Shyrlley Ferreira Ribeiro, 47, fazia suas orações agachada em frente ao túmulo da mãe, que faleceu há seis meses. “Também visito o túmulo do meu ex-marido, que morreu há cinco anos. Às vezes, minhas filhas me acompanham”, disse, acrescentando que não viu problemas no cemitério durante sua visita. O casal Tereza de Andrade e Antônio Raimundo de Almeida era da mesma opinião. Frequentadores do cemitério há 40 anos, desde a morte da mãe de Antônio, os dois não admitem ouvir que o Campo da Esperança é mal cuidado, como os jornais noticiaram nos últimos dias.

    “Sempre que viemos ao cemitério encontramos a lápide bem cuidada”, conta Tereza, que vai ao Campo da Esperança com o marido quase toda semana. “Hoje (ontem), nós contamos com a colaboração do porteiro, que nos deixou vir de carro até aqui dentro”, brincou Antônio, que tem 79 anos e poderia solicitar o privilégio de circular de carro pelo cemitério, mas alega não ter tempo para preencher o formulário. Quem não estivesse disposto a percorrer os longos caminhos do Campo da Esperança poderia pegar carona em uma das cinco vans disponibilizadas para o transporte.

    Entre os túmulos mais visitados estava o da menina Ana Lídia, que foi encontrada morta próximo ao Colégio Madre Carmem Salles (604 Norte) em setembro de 1973, quando tinha 7 anos — há quem acredite que ela realiza milagres. Perto do cruzeiro que fica no centro do cemitério, as homenagens foram para Maria Clara Del’Isola, morta em dezembro de 2004 por empregados em sua casa, no Lago Sul, quando tinha 19 anos. O Movimento Maria Cláudia Pela Paz organizou uma caminhada em direção ao túmulo da moça e de parentes de outras pessoas que se solidarizam com a família de Maria Cláudia.

    Ecumenismo
    Depois de passar no cemitério, algumas pessoas aproveitam para visitar o Templo da Boa Vontade, que fica ao lado do Campo da Esperança. No Dia de Finados, o templo ecumênico dedica atenção especial àqueles que desejam homenagear os parentes e amigos que morreram. Quem quisesse dedicar uma prece ecumênica precisava apenas incluir o nome do parente ou amigo na corrente de orações, que ocorriam a cada uma hora na nave do templo.

    “Vim lembrar meu pai, que morreu no último 15 de agosto, e minha irmã, falecida há 3 anos”, comentou a estudante Silvia Inácio de Jesus despois de percorrer as espirais da nave. Adepta da religião espírita, a estudante não costuma visitar o templo, mas aproveitou o Dia de Finados para prestar as homenagens. Nesta época do ano, a movimentação no centro ecumênico cresce muito. O templo costuma receber de 60 a 70 mil pessoas por mês. De sexta-feira até ontem, o local recebeu quase a mesma quantidade de pessoas que o visitam ao longo de 30 dias.

    Eu acho…

    “Pago mais de R$ 300 por ano para a conservação do túmulo do meu pai, mas não vejo o serviço ser feito, principalmente na área de parque (onde não há lápides). Se tirarem a árvores que ficam perto do túmulo do meu pai, perco a referência. Quando chega o Dia de Finados, eles dão uma maquiada, põem até saco nas cestas de lixo.”

    Aparecida Maria Neves Machado, 49 anos, empresária, moradora do Plano Piloto