O santuário Maria Cláudia

Cinco anos após a trágica morte de Maria Cláudia Del’Isola, seus pais, os professores Cristina Maria e Marco Antônio Del’Isola, ainda aprendem a conviver com a ausência da estudante. Transformaram em oratório o local onde ela foi assassinada e planejam, para a missa de quinto aniversário, uma grande homenagem aos que os acompanham nessa dor.
Fé que ressuscita


Para a missa do quinto ano da morte de Maria Cláudia Del’Isola, os pais da estudante preparam uma grande homenagem a todos que caminharam com eles nessa dor. Voltaram para casa e, no local onde a filha foi assassinada, construíram um oratório

  • Marcelo Abreu
  • Fotos: Elio Rizzo/Esp. CB/D.A Press
    Os pais de Tatinha admiram as imagens sagradas: local do assassinato

    O Natal de Marco Antônio e Cristina Maria nunca mais será o mesmo. No espaço decicado à filha, fotos da estudante. O sorriso bonito que marcou sua vida de 19 anos. A avó, até hoje, não entendeu a perda da neta

    Eles passaram 30 meses fora do lugar onde um crime chocou Brasília e o país. Mas estiveram do outro lado da rua, sempre perto, numa casa alugada. Há um ano e meio, decidiram voltar. E transformaram o ambiente. Pintaram paredes com cores mais claras. Mudaram portas. E no piso inferior, perto da piscina, no lugar onde a cena brutal foi consumada e a filha caçula viveu seus últimos e piores momentos (foi assassinada pelo caseiro e pela empregada e enterrada dentro da própria casa), um oratório foi construído. Imagens de Nossa Senhora, anjos, santos, terços, uma Bíblia aberta. E a foto enorme dela — de Maria Cláudia Del’ Isola, a Tatinha, a moça que estudava psicologia e pedagogia, amava as pessoas, sentia prazer em viver e havia acabado de completar 19 anos.

    Assim que se entra no oratório, chamado Sorriso de anjo, sente-se uma sensação boa de paz. Do alto e no meio de uma grande estante de madeira, a imagem de Jesus Cristo parece receber quem ali chega. Ao lado, ao fundo, um banner com a fotografia de Maria Cláudia. Ela sorri, com o sorriso encantador que marcou todos que a conheceram. “Eu perdi a graça em tudo. Ela era a alegria em pessoa”, diz, em lágrimas, a avó materna Fernanda Magalhães Grangeon, 80. E repete, enxugando o choro que escorre há cinco anos: “A gente se conforma porque tem fé, mas é muito difícil”.

    Cinco anos depois da tragédia que marcou a cidade, os pais de Maria Cláudia, os professores Cristina Maria, 51, e Marco Antônio Del’Isola, 54, abriram, com exclusividade, as portas da casa, na QL 6 do Lago Sul, ao Correio Braziliense. Na manhã chuvosa da última quinta-feira, eles falaram de uma dor que dói todos os dias. Dor que sangra. Arrebenta. E estrangula. Contaram como sobreviveram até aqui. Do pior momento: encarar os assassinos da filha, no julgamento. E reveviver detalhes que jamais gostariam de lembrar. De onde buscam forças. E do resgate que o Movimento Maria Cláudia pela Paz foi capaz de promover em suas vidas.

    Diante da primeira e inevitável pergunta, aquela que faria compreender o fato de a família ter voltado para a mesma casa, Cristina Maria, com voz pausada e olhos enternecidos, às vezes olhando para o infinito, responde: “Voltamos principalmente por ela. Precisávamos voltar. Queríamos transformar toda uma dor em alento e luz”. E fala por ela mesma: “O meu tempo nessa casa é o tempo de Deus”.

    Voltaram. E ali, a cada dia 9 de todo mês, é feita uma oração pela vida e pela paz. O movimento, uma entidade de caráter filantrópico, criado em 8 de março de 2005, pela família, parentes e amigos, hoje congrega mais de 500 voluntários cadastrados. Gente de todos lugares de Brasília e do país. Gente de todas as camadas sociais com histórias de perdas ou não, com vontade de ajudar outras pessoas, transformar, falar de dor, superação, vida e fé — seja ela de que credo for.

    Ao longo do ano, o movimento atua em asilos e instituições com crianças e adolescentes carentes. Perto do Natal, atravessa Brasília de ponta a ponta para levar esperança e um pouco de alento a quem nada tem. Marco Antônio engole a dor e se veste de Papai Noel. Disfarça as lágrimas e sorri para crianças que acreditam que aquele velhinho de barba branca e saco cheio de presentes realmente existe. Hoje, o movimento fará a grande festa de Natal do Instituto Nossa Senhora da Piedade, para as crianças e suas famílias atendidas ali.

    Foram essas ações, com a fé inabalável, o que salvou Marco Antônio e Cristina Maria. A casa dos Del’Isola — palco de um cruel assassinato — se transformou num lugar de oração e esperança. É por isso que os dois sobreviveram. “Costumo dizer que a dor do parto é enorme. Mas é uma dor que dá a possibilidade de trazer a vida. E ela passa. A dor de perder um filho é definitiva. Nunca será normal um filho ir na frente dos seus pais. Viola a lei de todo ser vivo”, desabafa a mãe. O pai, com serenidade comovente, emenda: “É uma dor eterna. Nossos dias têm sido de altos e baixos”.

    Saudade

    Depois que Maria Cláudia morreu, meses seguintes, as duas cadelas da família morreram de câncer. Deprimiram-se e definharam a olhos vistos. Uma delas, a boxer Kiara, a que estava na casa havia dois anos e 10 meses e era mais ligada a Tatinha, parece ter presenciado toda a agonia da estudante. “Quando eu cheguei em casa e ainda não sabíamos do crime, ela me levava ao fundo do quintal. Acho que tentava me apontar alguma coisa”, lembra Cristina Maria. E continua: “Depois, soubemos que ele (o assassino) revelou em depoimento que a Kiara tinha atrapalhado durante o crime. Ela tentou defender minha filha”.

    O silêncio e a dor invadiram aquela casa. Dilacerados e aconselhados por amigos, decidiram sair do lugar que lutaram para dar o conforto à família. Alugaram uma casa no mesmo conjunto, do outro lado da rua. A presença de Maria Cláudia apenas mudou de endereço. Ela estava nas fotografias, no cheiro, nos objetos pessoais. “A saudade vem de uma forma muito interna. Vem nos momentos em que acordo de madrugada, revendo fotos e relembrando tudo que vivemos juntas. Aí, vejo que preciso intensificar minhas orações e minha fé”.

    Marco Antônio revela: “Não tem um único dia em que não pense nela. O que nos conforta é acreditar que nossa filha foi acolhida junto ao Pai”. Maria Cristina, novamente olhando para o infinito, diz: “Maria Cláudia não voltou em vão. Ele vive em plenitude”. A tia-avó, Georgete Magalhães, 90, que mora em Salvador, mas veio a Brasília especialmente para a missa do quinto ano, é a personificação da dor: “Não entendo como Deus permitiu que ela vivesse 19 anos e morresse dessa forma.” Um silêncio se faz por instantes naquela sala de paredes claras, rodeada de porta-retratos de Maria Claudia sempre sorrindo.

    Tudo mudou na vida do casal Del’Isola. Até os ponteiros do relógio. “O tempo de quem passa por uma dor como essa começa a ser contado diferente. Foi preciso trazer algum benefício dessa dor”, ela reflete. Fernanda Del’Isola, hoje com 26 anos, estava no hospital — em decorrência de um problema no coração — quando a irmã caçula foi assassinada. Em cadeira de rodas, foi ao enterro. Agora filha única, iniciando o mestrado em arquitetura, Fernanda fez-se forte. Mostrou aos pais que todos deveriam sê-lo. Ano que vem, vai se casar. “Ela tá preparando, em mosaico, uma lembrança para todas as madrinhas (do casamento)”, conta Cristina Maria, pela primeira vez sorrindo durante a entrevista.

    Celebração

    A fé ressuscitou os Del’Isola. Permitiu que eles seguissem, mesmo com a dor que dói todos os dias. “O Movimento Maria Cláudia pela Paz não é da família ou dos parentes da minha filha. É de todas as pessoas que são alimentadas por essa causa”, diz Cristina Maria. Encorajados por ele, na próxima quarta-feira, 9, irão se reunir no Lago Sul, para a missa do quinto ano da morte de Tatinha.

    A mãe explica que essa celebração, em especial, tem uma grande motivação: “É um louvor à vida. Iremos agradecer aos nossos amigos, que nos fortaleceram com a presença, em pensamento e oração. O apoio veio de todas as crenças e esse foi o nosso grande ensinamento”. Comovida, olhando para a foto da filha, Cristina Maria conclama: “Estou pedindo para que as pessoas não deixem de ir. No final, haverá uma homenagem a todas elas”.

    No oratório, o casal se dá as mãos. Olha para o Cristo crucificado. Tudo é silêncio e dor. Dor tatuada nos olhos, no coração e na alma de Cristina Maria e Marco Antônio. Nem todo o tempo do mundo dissipará essa dor. Nem as horas serão capazes de amenizar. Mas, ainda assim, há um alento, que veio com a fé. Em pedaços, cortada por dentro, a vida do pais de Maria Cláudia precisou continuar. Tatinha pede isso a eles, todos os dias, quando sorri nas fotos espalhadas pela casa onde morreu.

    SOLIDARIEDADE
    Missa do quinto ano de morte de Maria Cláudia Del’Isola — Seminário Maior Nossa Senhora de Fátima, dia 9/12 – 19h30, na SMDB QI 17, Área Especial.