A história na bandeja

José Dutra Ferreira serviu churrasco a JK no primeiro dia de trabalho como garçom em Brasília, em 1957.

Memória viva de um garçom


Ele conviveu bem de perto com Juscelino Kubitschek, presenciou cada momento da festa de inauguração de Brasília e todas as recepções importantes dos anos seguintes. Tem histórias reais para contar que não constam nem nos registros oficiais do DF. Sonha publicá-las

  • Marcelo Abreu


  • Fotos: Cadu Gomes/CB/D.A Press
    Com Edna, companheira de uma vida toda: ela deixou o Rio de Janeiro e levou o maior susto quando chegou aqui

    Fotos: Cadu Gomes/CB/D.A Press/Reprodução
    A partir da esquerda, o quarto da turma de garçons: formação foi na escola prática, o luxuoso Grande Hotel de Araxá, em Minas Gerais
    À esquerda: Dutra e Edna, na casa construída pelo casal, no Núcleo Bandeirante, em 1959

    No antigo Palácio do Ipê, com Farah Diba (C), mulher do xá da Pérsia, Reza Pahlevi

    À esquerda, no Palácio do Planalto, servindo o presidente que falava com gente — até hoje, é seu único grande ídolo. Na foto maior, ele segura a bandeja com a qual trabalhou e a foto, com dedicatória de próprio punho endereçada ao “amigo Dutra”

    Um dia e uma noite sacolejando na boleia de um caminhão. Eram 21 rapazes em busca do sonho. E o caminhão, enfim, parou. Araxá, em Minas Gerais, havia ficado para trás. A madrugada começava. Brasília, que ainda nem existia, era poeira, escuridão e enigma. Clodoveu, motorista do caminhão, gritou, em tom de alívio: “Chegamos!” Os rapazes se entreolharam. Um deles disse: “Onde? Cadê Brasília?”. Era 4 de janeiro de 1957. Seria o primeiro dia do resto da vida de um dos 21 rapazes que viajavam dentro daquele ônibus.

    Cinquenta e dois anos depois, essa história vira livro. Mais que isso: um registro de vida. Do melhor que uma vida pode juntar. O dono da história é um homem simples, de sorriso tímido, mineiramente tímido. Um garçom que virou mordomo. E, assim, conviveu com o poder. Autoridades de um país ainda muito diferente. O começo de uma cidade. O sonho de Juscelino Kubitschek. O sonho e a luta de fazer a nova capital. O nome desse homem de 78 anos? José Dutra Ferreira. Achou o nome grande? Chame-o apenas de Dutra.

    O caminhão de Clodoveu chegou. Dutra foi para a Candangolândia. Lá, hospedou-se no Restaurante Paranoá, da Velhacap. Era ali que moraria e trabalharia. “Já saí de Araxá empregado. Aqui, ninguém ficava desempregado”, conta. Cansado, Dutra cochilou. Sabia que no dia seguinte a labuta começaria. Dito e feito. Mal o sol raiou e o rapaz de 26 anos de Araxá tinha uma missão: servir num churrasco no Brasília Palace Hotel. E lá se foi o garçom para o seu primeiro dia de trabalho.

    E não seria um churrasco qualquer. Era o aniversário de Israel Pinheiro, o primeiro administrador da futura capital. E lá estava Dutra, de roupa de garçom, servindo JK, dona Sarah, as filhas Márcia e Maristela e dona Júlia, a mãe do presidente. Os diretores da Novacap também participaram. Até o cantor Juca Chaves deu as caras. Dutra, que começou a vida como garçom do Grande Hotel Araxá, estava no meio da mais alta Corte do país.

    Ele servia o presidente que falava com todos. Logo, JK decorou o nome daquele homem com bandeja na mão. E chamou-o apenas de Dutra. “Ele não era um presidente. Era um amigo. Parecia da família. Tratava todo mundo com intimidade, sem cerimônia.” Aquele 1957 findou. Em 1958, Dutra voltou a Araxá, para um passeio. Reencontrou-se com uma antiga conhecida da cidade — Edna Maria, costureira, que morava no Rio de Janeiro.

    O que era amizade virou amor. E namoro e casamento. Em 1959, a moça que morava no Leblon desembarcou na cidade que nem existia. Edna nunca tinha visto tanta imensidão e poeira. E tanto sonho a ser construído. “Conhecia casas de madeira das fotos das revistas. Pensava que aqui era a mesma coisa. Quando cheguei e vi o barraco de madeira onde ia morar, chorei”, lembra.

    Parteiro
    Mas Edna decidiu, aos 22 anos, que aqui seria feliz: “Sou guerreira”. Tirou o salto alto, a roupa bem cortada de linho e encarou a realidade de uma Brasília que insistia em existir. “No dia seguinte, com meu pai, que veio comigo, pegamos serrote e madeira e fomos fazer bancos pra casa e prateleiras pra cozinha.” Dutra, como garçom, ganhava a vida servindo uma gente de terno e gravata que construía uma cidade e escrevia a história do país. Trabalhava também em festas no Itamaraty e no Palácio do Ipê, antiga residência oficial do chefe da Casa Civil, onde hoje funciona a Universidade da Paz.

    No fim daquele 1959, Edna engravidou da primeira filha de Dutra. E já era telefonista da Novacap. “Fui a sétima telefonista contratada em Brasília”, orgulha-se. A barriga de Edna crescia. Raiou 1960. Em abril, Brasília é inaugurada. No dia da festa, Dutra trabalhou como nunca. Serviu autoridades no Palácio da Alvorada — residência oficial do presidente. “Estava lá às 6h da manhã. No palácio, estavam Juscelino, a família, os ministros, alguns senadores e deputados e poucos amigos. Éramos mais de 20 garçons”, diz Dutra.

    Naquele mesmo dia, com um barrigão de sete meses, Edna trabalhava na central de telefones da Novacap. “Nem vi a festa. Os telefones não paravam de tocar.” O sonho de JK virou realidade. Os candangos comemoraram. E a vida seguiu. No dia seguinte, havia muito o que fazer. Curou-se a ressaca com trabalho.

    Junho chegou. A primeira filha brasiliense de Edna e Dutra tinha pressa para nascer. E chegou a hora de a telefonista parir. No barraco da Candangolândia, sem médico, a menina queria nascer. Edna se preparava para dar à luz. Dutra, ao lado da mulher, ajudava. Chegou o momento. O garçom virou parteiro. Jussara — o quarto nascimento oficial de Brasília — veio ao mundo. O nome da menina foi uma singela homenagem a Juscelino (Jus) e a dona Sarah (Sara). Jussara tornou-se o símbolo, para Dutra e Edna, de que toda a luta valera a pena.

    No fim da manhã de ontem, na casa espaçosa e fartamente arborizada da MI 3 do Lago Norte, onde ele mora com sua Edna, pergunto ao ex-garçom onde ele aprendeu a fazer partos (depois de Jussara, ele também fez o parto de Consuelo, a segunda filha). Ele olha para a mulher e diz, com o jeitinho mineiro de ser, quase envergonhado: “Aprendi no cinema”. Edna não perde a deixa. Às gargalhadas, emenda: “Você aprendeu comigo, enquanto eu paria…”

    Livro
    O tempo andou. A telefonista atendeu muita ligação. O garçom arrumou uma colocação no Banco do Brasil. “Era auxiliar. Atendia o público”, conta. Mas ele não gostou muito da função. Logo foi requisitado para a Presidência da República. “Era agente pagador, encarregado do pagamento dos funcionários.” Mas ele sabia que não era o que realmente gostava de fazer. E foi para o Senado. Ali, virou mordomo. E serviu, surdo, mudo e cego, a uma infinidade de senadores. “Um garçom tem que ser, antes de tudo, discreto. Depois, atencioso”, ensina. E admite, voltando ao passado: “Araxá me tornou um garçom. Hoje, não se tem mais. Eles nos servem passando por cima de nossas cabeças”.

    Dutra seguiu fiel e leal a quem serviu. Escreveu, anonimamente, uma história. Tornou-se parte dela, mesmo que nem tenha percebido. Viu a história viva da capital. Ajudou a fazer Brasília existir, Presenciou atos, ouviu conspirações. Assistiu a golpes. Comemorou a volta da democracia. E amou Brasília como poucos.

    Aprendeu a admirar. Escolheu os bons políticos. Esqueceu os maus. Passados mais de 50 anos, o homem que passou a maior parte de sua vida carregando bandeja e abrindo portas para autoridades tem uma certeza. No atual momento pelo qual passam o Brasil e Brasília, a certeza dele é oportuna e nada mineirinha: “Como Juscelino, não haverá outro. Hoje, muitos políticos são ladrões, safados e sem-vergonha. Virou a maior bagunça. Eles não respeitam mais ninguém, brincam com nossa cara”. Insisto em saber do que Dutra tem saudade. Sem hesitar, responde: “De um Brasil diferente. Um Brasil de verdade”.

    Há quase dois anos, Jussara, a primeira filha, incentivou o pai a escrever sua história. Ele lhe disse: “Minha filha, não sei fazer isso”. E ela lhe deu uma grande ideia. Ele falaria num gravador e depois isso seria escrito. Jussara assim o fez. Chamou a jornalista Rosalba Ribeiro da Matta Machado para ajudar no trabalho. Rosalba foi ao encontro de Dutra. A primeira conversa — de uma série de muitas que viriam ao longo de um ano e meio — durou três horas. “Precisava sentir as coisas”, ela diz.

    A jornalista ouviu, checou fatos, datas. Conversou com personalidades importantes sobre a história da capital. E descobriu que Dutra tinha uma memória perfeita. “As informações dele eram corretas, precisas. Ele me contou coisas que contrariam a história normal. Isso me emocionava, me fazia pesquisar mais, ir atrás”, conta, emocionada.

    O livro, com 350 páginas, está pronto. Prontíssimo. Texto, revisão, fotos digitalizadas, algumas feitas com bico de pena, autorizações concedidas (dos próprios políticos, ou das famílias destes, citados na obra). Falta apenas ser impresso. “É o sonho do meu pai”, diz Jussara. Dutra, que vive com uma aposentadoria de R$ 2 mil, ouve a filha falar. Mareja os olhos. O nome da obra? Dutra, memórias de um garçom de JK, mordomo de Brasília. É mais do que um livro. É a história viva e real da capital, a que não consta nos registros oficiais. São as lembranças de um homem que, apenas ouvindo e servindo, nasceu e cresceu com um sonho corajoso chamado Brasília.

    Vale a pena
    Se alguém ou alguma editora puder ajudar na edição do livro, ligue para Jussara: 9970-9327.

    Como Juscelino, não haverá outro. Hoje, muitos políticos são ladrões, safados e sem-vergonha. Virou a maior bagunça. Eles não respeitam mais ninguém”