O sonho que veio do lixo

Cinco irmãos pobres que moram numa expansão de Ceilândia receberam presentes de Natal de um homem que recolhe o que ninguém mais quer. Na manhã de ontem, ele levou magia àquelas crianças. E o Natal no barraco de terra batida se iluminou

  • Marcelo Abreu
  • Fotos: Breno Fortes/CB/D.A Press
    O barraco miserável nos confins de Ceilândia se encheu de alegria . As crianças receberam os brinquedos velhos, mas para elas pareciam novinhos

    Elas brincam no portão feito com resto de madeira: mansão que conhecem

    A fé em dias melhores: “Tudo posso naquele que me fortalece”

    Na placa que indica o endereço da casa, está escrita a mensagem: “Tudo posso naquilo que me fortalece”. Dentro, um barraco de madeirite, com piso de terra batida, quatro camas, dois velhos sofás, uma geladeira, um fogão e uma televisão, igualmente velhos. E um telefone que apenas recebe chamadas. É de uma pobreza que comove. Quase tudo falta. Ali, moram nove pessoas — pai, mãe e sete filhos. E, no meio daquele lugar perto do nada, a vida se faz apenas de esperança. Na manhã chuvosa de ontem, ela, a esperança, veio novamente. Do caminhão que recolhe o lixo, saíram presentes. O lixeiro, o homem que recolhe o quase nada que aquela gente joga fora, lhes deu o pouco do que conseguiu do lixo dos que muito têm.

    E assim, como mágica, ele chegou à porta daquela casa da QNR 05, na expansão de Ceilândia. Ao avistarem o moço de longe, as cinco crianças moradoras do barraco — com idade de 3 a 10 anos de idade — correram. Não acreditaram que, mesmo sem barba branca e barriga enorme, ele tinha chegado. Ele existe, sim. A mais miudinha delas, Maria Isabele, 4, decretou: “O Papai Noel existe, sim!”.

    O moço do lixo trouxe, do lixo, os presentes que iriam encher de alegria aquelas crianças. Não havia embrulho especial. Trouxe-os carregando nas mãos. Para Tiago, 10 anos, veio um carrinho de vermelho. Maria Eduarda, 9, uma carcaça de celular. Simulou ligar para a mãe, que havia saído para resolver problemas. A mesma coisa fez com o pai, que lavava carros longe dali. Contou-lhe as boas novas. Camila, 8, arregalou os olhos quando viu nos seus braços a Barbie toda capenga e com os cabelos desgrenhados. Ludimila, que completa amanhã 5 anos, na véspera do Natal, ficou toda prosa com um celularzinho sem bateria e sem visor. Maria Isabele, a caçulinha, quase não acreditou quando recebeu o Gênio, um boneco gordo de pano.

    Sem alarde
    O homem que recolhe lixo foi embora. Não quis agradecimento. Nem se sentiu herói. Mas a emoção dele foi testemunhada pela vizinha e amiga da família, Cecília Maria de Freitas, 39. “Ele saiu bem contente. As crianças pularam de alegria. Mal deram conta de dizer obrigado.” Os filhos de uma ambulante e de um lavador de carros não se contiveram de tanta felicidade. Até os três cachorros da família — Vigilante, Mutante e Branquinha, que os meninos acharam na rua abandonados e os levaram para aumentar a família — também ficaram elétricos com a euforia das crianças.

    O barraco humilde e escuro ficou pequeno diante da correria da meninada. A mãe deles, Joana D’arc de Aquino, 38, escreveu oito cartas para o Papai Noel — in- cluindo aí uma dela própria, pedindo “material de construção para fazer uma casa de verdade”. Revelou o desejo dos sete filhos, incluindo os dois adolescentes. Até ontem, porém, não tinha colocado os escritos nos Correios. “Ela não teve tempo. É muita coisa pra fazer”, justifica Deyvison, 16, o filho mais velho, que, na ausência dela, toma conta dos irmãos mais novos como se fosse adulto.

    Não importa se as cartas não chegaram aos Correios. O lixeiro, que nem se preocupou em revelar o nome às crianças, se encarregou de vir bem de longe e lhes deu o que podia lhes dar. Não chegou de trenó nem carregou saco abarrotado de presente embrulhado em papel bonito. Veio pendurado num caminhão, como equilibrista. É assim que ganha a vida, todos os dias. Recolhe o que não faz mais falta a quem jogou fora. Parou na porta da casa e lhes chamou, pendurado no caminhão. Ao vir o rosto de espanto das crianças, contou-lhes que Papai Noel havia mandado entregar. Os irmãos que vivem naquele barraco acreditaram.

    Sem árvore
    Na manhã de ontem, uma felicidade natalina — e incomum — entrou naquele barraco sem árvore de Natal na QNR de Ceilândia. “A minha mãe sempre diz que vai montar uma bem grande, mas a gente nunca consegue”, conta Maria Eduarda. Camila diz que só conhece uma pela televisão. Maria Isabele sonha ver uma de perto: “Eu dormi e vi uma do lado da minha cama”.

    No meio da tarde, Joana D’arc, a mãe, retornou para casa. Estava cansada, de tanto andar atrás do carrinho com o qual trabalha como ambulante e que havia sido apreendido pela fiscalização. “Vendo água e refrigerante na feira. É com ele que consigo trazer alguma coisa pra casa.” Ao chegar, encontrou a felicidade dos filhos por terem ganhado o resto do que ninguém mais quis. Emocionou-se: “Eu queria dar tudo de bom pra eles, mas não posso. Faz tempo que não consigo fazer nada. Tudo que eles têm é quando ganham dos outros”.

    Os filhos de Joana nunca foram a um shopping. Muito menos estiveram no Plano Piloto. “Mas a gente conhece Ceilândia, Águas Lindas (a casa da avó) e Taguatinga”, comemora Tiago. Camila intervém: “O Papai Noel mora em Ceilândia. Eu pedi pra ele uma bicicleta rosa de Natal. Ele me disse que vai me dar”. Ludimila não deixa por menos: “Ele falou comigo”. Maria Isabele, a espivitadinha, sapecou: “Ele sabe onde é a minha casa”.

    Nesse momento, a menininha corre para pegar Branquinha, a cadela mais nova família. Branquinha vivia sozinha no meio da rua. Um dia, Camila e Maria Eduarda acharam-na sozinha, chorando na rua. Não hesitaram. Levaram-na para a casa, o barraco apertado onde falta tudo. Mas nem assim os impediu de dividir o pouco que eles têm. Sempre cabe mais um. Foi assim com Vigilante e Mutante, os outros dois vira-latas. Hoje, fazem parte da família.

    No meio de tanta privação, Tiago, que estuda a 3ª série, faz planos de menino grande: “Vou ser policial”. E sonha: “Queria um mundo sem gente passando fome, sem maldade, sem crime, sem bandido e sem drogas. É isso que desejo pra todo mundo”. Camila quer ser doutora. “Pra cuidar das pessoas machucadas.” Maria Eduarda, Ludimila e Maria Isabele, por enquanto, só querem mesmo é brincar com o resto do que foi jogado fora. À moda dele, completamente fora dos padrões das historinhas bonitinhas e encantadas, Papai Noel chegou àquelas crianças vestido com uniforme de gari, suando em cima de um caminhão de lixo. E lhes causou felicidade do tamanho de um sonho. Vai ver Natal é mais que do que se sabe até agora. Bom saber.

    Vou ser policial. Queria um mundo sem gente passando fome, sem maldade, sem crime, sem bandido e sem drogas. É isso que desejo pra todo mundo”

    Tiago, 10 anos