Respirar, a luta e a a vida de lucas – sábado – 12/06

superação
Respirar, a luta e a vida de Lucas

Portador de uma grave enfermidade pulmonar, o adolescente driblou os piores momentos da doença — quando até mesmo os médicos acreditavam que havia chegado ao fim — e virou caso de discussão em congresso de medicina. A batalha para continuar vivo é incessante

  • Marcelo Abreu
Fotos: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press
Irani, a mãe (ao fundo), e Lucas, o menino que renasce todos os dias. Hoje, aos 13 anos, brinda o prazer de viver
Palmeirense roxo, o futebol é a sua grande paixão

Toda a gravidez foi tranquila. O pré-natal, feito num posto de saúde de Planaltina, indicava que o bebê era perfeito. A moça da zona rural, então com 22 anos, ia dar à luz o primeiro filho. E chegou a hora. De parto normal, o bebê nasceu no Hospital Regional de Planaltina. Chorou com gosto. O nome já estava escolhido: Lucas. A mãe logo voltou para casa, na zona rural da cidade.

Com um mês e 20 dias, o bebê aparentava cansaço ao respirar. E a mãe percebeu uma secreção estranha na boca do filho. Ela se assustou. Correu ao mesmo hospital onde dera à luz. Na emergência, um médico plantonista atendeu aquela mulher que carregava o bebê nos braços. Um raios X foi pedido. E o homem de jaleco branco lhe disse, sem olhar com atenção para a cara de quem estava falando. “Seu filho não tem pneumonia, não tem nada nos pulmões. É apenas uma gripe”.

A cena, comum em hospitais públicos e particulares, se repete todo dia, com uma infinidade de gente que, na hora de que mais precisa, nem sequer é ouvida. Dado o diagnóstico, o médico mandou que a mulher da zona rural voltasse para casa. Antes, recomendou que o bebê fizesse nebulização de seis em seis horas.

Ela assim o fez. “No dia seguinte, ele estava mais cansado ainda. A nebulização não ajudou em nada”, lembra Irani Neres Santana, hoje com 35 anos. Desesperada diante da agonia do filho em respirar, ela correu para o Hospital Regional da Asa Sul (Hmib). Embarcou num ônibus lotado para o Plano Piloto. “Quando a gente chegou na Rodoviária, ele já tava todo roxinho, quase não respirava.”

Lucas Neres Pereira foi levado ao Hmib num carro da Polícia Militar, que socorreu aquela mãe desesperada com o filho quase morto nos braços. “O médico de plantão tava de saída, mas voltou para socorrer o meu filho. Nunca vou esquecer o que o doutor Carlos Zacconeta, da UTI neonatal, fez pelo meu filho naquele dia.”

Um raios X foi pedido às pressas. E a revelação assustadora, que o outro homem de jaleco branco foi incapaz de perceber. Lucas tinha uma lesão severa em dois terços do pulmão esquerdo. Laudo: bronquiolite obliterante — doença respiratória, geralmente grave, que, normalmente, acomete crianças com menos de 2 anos de idade. É causada por um tipo de vírus, o chamado vírus sincicial respiratório, ocasionalmente por outros tipos de vírus.

Lucas ficou dois meses internado na UTI. Depois, transferiram-no para um quarto, onde permaneceu por mais 60 dias. Em outubro de 1997, ele deixou o Hmib, mas seu estado ainda era grave. Foi direto para a emergência do Hospital de Base (HBDF). Lá, ficou aos cuidados da pneumologista Rita Heloísa Mendes. “Ela foi e é uma das pessoas mais importantes que chegaram nas nossas vidas”, agradece a mãe.

O bebê não conseguia sair do balão de oxigênio. E cada vez seu quadro se agravava. A médica — dessa gente de jaleco branco que ainda se interessa por gente — moveu céus e terra para tratá-lo. Pesquisou, ouviu colegas, dividiu o caso dele com outros especialistas. E conversou sempre muito abertamente com a mãe, a moça simples da zona rural. Detalhe: ela se fazia entender. Irani confiou incondicionalmente na pneumologista.

Cirurgias
Em agosto de 1998, Lucas foi submetido à primeira cirurgia. Ele contava um ano e um mês de vida. Retirou uma parte do pulmão esquerdo, exatamente a mais afetada. “Mas a cirurgia não trouxe a melhora que a doutora esperava”, conta a mãe. Lucas tomou antibióticos, para combater as infecções pulmonares, e seguiu um tratamento rigoroso.

Em setembro, recebeu alta. “Mas 15 dias depois a gente teve que voltar pro hospital. Ele piorou muito.” E assim se seguiu uma sucessão de internações. Irani mudou-se da zona rural e foi morar em Arapoanga, bairro de Planaltina, para ficar mais perto de ajuda em caso de emergência. Viveu todos os segundos para cuidar do filho com saúde fragilizada.

A segunda cirurgia estaria indicada para quando Lucas completasse 10 anos. Mas, devido à gravidade do quadro, teve que ser antecipada. Aos 7 anos, submeteu-se ao procedimento mais radical. Retirou todo o pulmão esquerdo. Foram seis meses de internação. Voltas pra casa e recaídas. E a constatação: o pulmão direito também estava comprometido pela doença — desenvolveu uma hipertensão pulmonar severa — e o coração dava sinais de que carecia de ajuda.

A médica pensou em transplante de pulmão, que seria realizado no Rio Grande do Sul. Exames se sucederam. Expectativa. E a revelação: Lucas não poderia fazê-lo. Além da anatomia do tórax do menino não ser compatível, ele tinha uma bactéria devastadora no pulmão que o impediria de receber um novo órgão. “A médica chorou. Teve medo que meu filho morresse em mais uma crise”, conta Irani.

Lucas viveu na corda bamba. Cada dia a mais era um milagre. E, como milagre, os dias se passaram. Irani, devota de Nossa Senhora de Fátima, rezou como nunca pelo filho único. Aos poucos, com as novas drogas que a incansável pneumologista descobria e testava no pequeno paciente, o menino foi ganhando momentos de mais estabilidade no seu estado de saúde. E, consequentemente, melhor qualidade de vida.

Escola e sonhos
Lucas passou a ficar mais em casa. Em 2006, foi para a escola. Descobriu um mundo novo. O oxigênio que lhe dá vida o acompanhou. Em 2007, a médica Rita Heloísa, que nunca desistiu dele, o levou a um congresso de medicina, aqui mesmo em Brasília. Lá, diante da plateia de homens e mulheres de jaleco branco, ela contou a história do seu pequeno paciente. O público se emocionou. E Lucas tinha a resposta na ponta da língua: “Sempre tive Deus comigo”.

Cura? Não, Lucas não se curou. Toma sete remédios por dia. Precisa de oxigênio (dado pelo governo) para dormir e tem alimentação regrada, com suplementos especiais. De vez em quando, ainda precisa voltar para o hospital, quando está em crise. Mas, apesar disso tudo, nunca esteve tão feliz. Cresceu, chegou a 1,35m e está pesando 30kg. Completou 13 anos e cursa a 4ª série. Quando se pergunta de onde vem tanta força, o adolescente não hesita: “Sou mais forte do que a doença e vou conseguir”.

Sonha ser policial, ganhar um videogame e, por enquanto, de verdade, só quer mesmo é ajudar os colegas a decorar a rua com bandeiras para a Copa do Mundo. Palmeirense roxo, fanático por futebol, não vê a hora de assistir ao primeiro jogo da Seleção. Acredita que o Brasil vai surpreender. A mãe, separada do pai do adolescente, mantém a casa com um salário mínimo que recebe do INSS pelo auxílio-doença do filho.

“Ele tá vivo primeiro porque Deus existe. Depois, pela ajuda do doutor Zacconeta, da doutora Rita e de tanta gente boa que apareceu na nossa vida.”

Ainda hoje, emocionada, Irani chora escondida do filho. É choro de contentamento. Ele, destemido, amadureceu para seus 13 anos: “Tenho que ter coragem pra passar o que Deus mandar. Ele é poderoso”. Nesse momento, há uma gritaria no portão da casa humilde de chão de cimento bruto onde mora. São os amigos, que o chamam para terminar a decoração da rua com bandeirinhas verdes e amarelas. E lá vai ele, correndo, feliz da vida, como menino sapeca que descobre, todo dia, o prazer de estar vivo.

Solidariedade
Lucas precisa de um oxímetro (aparelho que mede a saturação de oxigênio no sangue e de que precisa usar regularmente). Custa R$ 1,2 mil. Quem puder ajudar pode ligar para Irani. Telefone: 9299-6811

Tenho que ter coragem pra passar o que Deus mandar. Ele é poderoso

Lucas Neres Pereira, 13 anos